Quando Faetusa me convidou para participar do Projeto Jardinagem: Territorialidade, Temporalidade e Ato Político, fiquei imensamente feliz e ainda mais comprometida. Pensar o jardim é parte da minha pesquisa em arte contemporânea em um doutorado em artes, mas é também o desafio de uma forma de vida, já que possuo uma propriedade de 520 metros quadrados em Porto Alegre, onde possuo uma casa, um jardim e nestes um complexo de situações e contextos – um laboratório à céu aberto. Processos artísticos de entrega ao meio ambiente, ou ao ambiente ao qual habitamos requerem muita escuta – ou talvez uma forma de aulscuta, já que há muito do fluxo entre os espaços de dentro – fora e interno – externo, entre o artista e este meio. Na arte pública isso pode ser discutido no âmbitos da territorialidade como um processo que desenvolvemos no urbano e no rural, mas também no da paisagem, e das propriedades do espaço e do lugar, assim como nos faz pensar a geografia ou a psicologia social, entre outras áreas do conhecimento que se deslocam no tempo e espaço na tentativa de criar uma definição ou apreensão de um conceito, o quanto mais próximo possível do fenômeno, movimento ou fluxo que venha a fazer pensar sobre nosso próprio cotidiano, sejam quais forem suas escalas.
 
Cultive um Jardim, foi a primeira expressão que me veio à cabeça quando Faetusa me fez o convite a participar de tão complexo projeto. De todas as maneiras, cultivamos algumas coisas, outras não, mas é como no jardim, um vasto lugar de experiências e de prolíferos resultados.

IMG_6200Terreno Baldio no Bairro Bom Retiro

Antes de chegar em Curitiba já havia muito trabalho feito por Faetusa e Goto, seu companheiro e colega de trabalho neste e em outros projetos de arte e de vida. Ultimamente tenho gostado de mencionar os trabalhos em arte feito por duplas de artistas. São tipos de organização que reúnem afeto em profissionalismo, ou uma micro política que atende para além das questões de gênero, mas sim a um modo de vida que faz crescer a arte, a arquitetura e a geografia em um tipo de coletivo específico que é a família.  Goto havia feito um trabalho de mapeamento para o projeto Territorialidade, algo que o faz muito bem,  já que é autor de um dos projetos mais complexos em mapeamento e ainda o mais atual  em arte contemporânea, chamado Circuitos Compartilhados. Vide: https://newtongoto.wordpress.com/circuitos-compartilhados/
No primeiro dia que estive em Curitiba em reunião com a dupla de artistas, recebi de Faetusa um  relato do mapeamento feito por Goto e com ele a indicação de algumas possibilidades para o Jardim Aberto, tendo em vista algo que eu havia apontado antes, como pontos disparadores para a consciência de Jardim como Memória e Sustentabilidade. Das possibilidades que me falaram – e todas muito envolventes e interessantes – fiquei sensível a possibilidade de trabalho com Dona Angelina, uma moradora do bairro Bom Retiro em Curitiba. O meu principal critério de escolha foi relacional,  ao ver que Dona Angelina também era do mesmo bairro onde vivem Faetusa e Goto.

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O Jardim de Dona Angelina

 JARDIM ABERTO
 
No primeiro dia que cheguei em Curitiba para o projeto Jardinagem: Territorialidade, Temporalidade, Ato Político, fui chegando antes e “a partir plantas” – um antes de chegar nas pessoas. Acredito que para este projeto, como para outros instantes, é melhor chegar no bairro, sua paisagem e de sua fauna, flora, seu urbanismo, antes de nos aproximarmos dos seres humanos. O contexto nos diz muito quando o assunto são jardins. É preciso reconhecer a paisagem como um todo, circular pelo bairro, entender seus fluxos, suas vias, e assim, por algumas horas, percorri, junto com meu companheiro e colega desta jornada, Paulo César, os Bairro Bom Retiro e seus vizinhos Pilarzinho e Barreirinha ( um pouco mais distante).

No percurso pelo Bairro Bom Retiro me entreguei ao trabalho de escuta ao terreno baldio da rua de acesso à Universidade do Meio Ambiente, onde realizei um trabalho de descoberta de o primeiro  Jardim Aberto para este trabalho.

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Uma Universidade Livre do Meio Ambiente em Meio a um Jardim que também é Parque, ou vice-versa.

Para realizar esta etapa do trabalho foi necessário reconhecer a paisagem do Bom Retiro e assim, realizar um processo de cartografia relacional com seus moradores, onde então conheci Dona Margarida (nome fictício para esta ação, já que a entrevistada não quis ser identificada). Dona Margarida mora na residência ao lado do terreno baldio há alguns anos e relatou usar o espaço baldio para coleta de algumas mudas de chás para acalmar as suas moléstias do estômago e dos nervos.

“Tomo aquele chá”,  diz  Dona Margarida apontando para um cultivo rasteiro de boldo do mato que fica no terreno baldio e muito próximo à janela do quarto da sua casa.

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 Casa da Dona Margarina vizinha do Terreno Baldio Bom Retiro

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 Entrada Terreno Baldio Bom Retiro

 O terreno baldio constitui-se de aproximadamente de 600m2 e possui amplo número de espécies de plantas alimentícias não classificadas (PANC’s), as quais constituem o broma natural da região, ou então realizam o processo de sustentabilidade do planeta através de um crescimento que não exige o cuidado e nenhum processo  de intervenção humana para sua manutenção e permanência. Outras espécies são vulgarmente – e equivocadamente – chamadas de daninhas ou até mesmo inço. Para este trabalho é importante percebermos que este espaço constitui um Jardim Aberto e que estas plantas fazem parte de um movimento de resistência ao sistema estético de jardinagem que afeta a maioria dos jardins particulares e públicos. Terrenos baldios não devem ser espaços de lixo, mas sim de cultivos naturais de espécies que garantem a pausa ao ecúmeno das capitais e aos processos de gentrificacão, bem como de resgate da mata nativa deste bioma e paisagem.

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Dia de coleta e catalogação de espécies para a Peça Gráfica Herbário Bom Retiro

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Coleta Terreno Baldio Bom Retiro

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